Entre a academia e a banheira: Meu relato de parto natural.

Sexta-feira, lá pelas 16h da tarde, senti uma fisgada na barriga e um pouco de líquido escorrendo. Fui ao banheiro e desconfiei que seria o tampão; conversei com a equipe toda e até desconfiamos que poderia ser a bolsa. Vida que segue… fui para a academia, supermercado, restaurante e aquele líquido continuou saindo de pouquinho em pouquinho, junto com o tampão.

Às 23h, a Dany veio me avaliar e confirmou a bolsa rota, mas sem dilatação. Eu ainda não estava em trabalho de parto, logo decidimos aguardar. Tranquilamente fui arrumar minhas coisas e as do Ian e deixar tudo prontinho no carro. Bernardo estava viajando e chegaria de manhã cedinho; pedi para minha mãe dormir na minha casa para esperar por ele, caso eu tivesse que ir para o hospital antes.

Todos dormindo e, às 2h da manhã, comecei a sentir algumas cólicas a cada 20 ou 30 minutos; às vezes, junto vinha uma contração mais fraca. Uma hora e meia depois, começaram as contrações fortes, doloridas e ritmadas, e então resolvi chamar o Thiago. Fiz exercícios na bola, recebi massagem, fomos conversando e eu já fui mandando mensagens e informando a equipe toda. Como era de madrugada e eu estava tranquila e lidando bem com as dores, quis esperar para chamar a Bruna (doula). Fui para o chuveiro para aliviar um pouco; Thiago fez um banquete de café da manhã para mim e comi ali mesmo. Marcinha queria me avaliar pela manhã e fazer um cardiotoco, então combinamos de encontrar todos na maternidade. Acordei minha mãe e contei tudo; algum tempo depois o Bernardo chegou e eu avisei para ele que o irmão só estava esperando ele chegar para poder nascer. A Bruna veio para minha casa e então fomos para a maternidade. Tudo ótimo no cardiotoco e dilatação em 6/7 cm. Havia apenas uma única vaga na maternidade – é claro que eu não iria voltar para casa para aguardar a evolução e correr o risco de perder minha vaguinha, né? Ficamos por ali mesmo; acho que eram umas 10h da manhã e fomos direto para a suíte de parto. Seguia muito tranquila, só esperando a hora do Ian. Recebi muito carinho, apoio e massagens; conversamos bastante e demos muitas risadas. Aos poucos as contrações iam ficando cada vez mais fortes e menos espaçadas, e eu já começava a ficar cansada, com sono e não conseguia descansar.

No segundo toque seguia em 7cm, mas tudo bem; eu me preparei bastante e sabia que era assim mesmo, não tem um máximo de tempo para a dilatação de colo e eu sabia disso. Segui tranquila e aguardando. Todo mundo sempre comentava que eu estava plena e muito calma.

Na parte da tarde (não me lembro que horas, a gente perde a noção do tempo, né?), novamente fui para o chuveiro e então percebi que deu uma estagnada: contrações menos doloridas, mais espaçadas, e me bateu um desespero. Fazia horas que eu estava lá, sentindo a dor das contrações, o cansaço… fiquei com medo de algo dar errado e eu ter que ser submetida a alguma intervenção, o que não estava nos meus planos, afinal, meu desejo era um parto natural. Chorei e desabafei com o Thiago; me senti frustrada. A Bruna me acalmou um pouco, respirei fundo e esperei mais um tempo. Mas o desespero voltou e eu ficava pensando que não estava evoluindo, que talvez precisasse de ocitocina ou alguma outra coisa, e eu não queria isso de forma alguma. Conversei com a Marcinha e decidimos que ela iria fazer um novo toque (ainda não tinham se passado 4h do último) e então poderíamos pensar no próximo passo. O colo estava da mesma forma e ela sentiu que havia se formado um bolsão de líquido abaixo da cabeça do Ian (minha bolsa tinha rompido lá no alto), então me deu duas opções: esperar ou terminar de romper aquele bolsão ali. Relutei um pouco, mas aceitei a segunda opção; estava muito cansada e era melhor que qualquer outra intervenção.

Bom, a partir daí tudo foi se intensificando muito rápido. Contrações vindo com tudo e bastante doloridas, mas já tinha me acalmado e agora era continuar esperando a evolução. Fui para a banheira; a água quente já não ajudava tanto, mas fiquei confortável ali, já não dava mais conta nem de sair. O ambiente estava acolhedor, com varal de luzinhas, fotos nossas e frases de afirmação positiva. A cada contração eu pensava que não aguentaria uma próxima; depois pensava que a cada contração era uma contração a menos, e os dois neurônios que me sobraram ficavam brigando entre “eu não consigo mais” e “eu consigo sim, já cheguei até aqui e vou até o fim”.

Comecei a sentir os puxos – meu Deus, que loucura, uma força descomunal e incontrolável. Eu falava “não aguento mais” e pensava “quero desistir” (desistir não sei do quê, né? Ian estava ali na portinha já). Passaram mil coisas pela cabeça: arrependimento, analgesia e até cesárea, mas eu não pedi em momento nenhum. Só saía “eu não consigo”, olhava para o Thiago e ele me devolvia um olhar de apoio e estímulo. Marcinha e Dany diziam na maior calma do mundo: “é claro que você consegue, seu bebê está chegando, falta pouco”. A Bruna não soltava minha mão e me acalmava também. Coloquei a mão e senti a cabecinha do Ian; mais um puxo e ele não saiu. Lembro de dizer que ele estava preso e não ia nascer.

Enfim saiu a cabeça. Eu estava de cócoras, não conseguia decidir se levantava ou se sentava; uma força me puxava para cima e outra para baixo. Diz o Thiago que eu estava fazendo igual a um saquinho de chá: subindo e descendo a cabeça da criança na água. Alguém me disse “pode gritar, ajuda”; eu me concentrei na respiração, acatei a ordem e finalmente o Ian nasceu. Marcinha amparou e entregou para o Thiago. Ali ficamos nós três no nosso mundinho cheio de ocitocina, amor e sensação de dever cumprido!

Obrigada, Marcinha. Você está no meu coração para sempre!

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